O conceito de Construcionismo Distribuído foi proposto Resnick (1996), como um modelo pedagógico derivado da Cognição Distribuída (Rogers, 1997) e do Construcionismo, este último proposto por Papert (1980). O Construcionismo de Papert, por sua vez, se baseia no Construtivismo Cognitivo de Jean Piaget:1897-1980, mas também mostra elementos do Construtivismo Social de Vigotski:1896-1934, embora Papert não faça referência aos trabalhos de Vigotski.
Os trabalhos de Piaget investigam como se dá a construção da cognição e aprendizagem em crianças, caracterizando o Construtivismo Cognitivo, que é baseado nos seguintes princípios (Cognitive Constructivism, 1997):
O aspecto social do trabalho de Vigotski afirma que, embora o ser humano tenha potenciais inatos de conhecimento e cognição, as funções psicológicas superiores tipicamente humanas, "que envolvem o controle consciente do comportamento; a ação intencional e a liberdade do indivíduo em relação às características do momento e espaço presentes" (Oliveira, 1997) decorrem, em sua maior parte, de um processo de aprendizagem e desenvolvimento social. Em outras palavras, um ser humano criado em completo isolamento da cultura e sociedade humanas não desenvolve capacidades cognitivas básicas típicas do "ser humano".
O aspecto histórico do trabalho de Vigotski declara, de modo complementar, que o desenvolvimento de uma sociedade é decorrência de um processo histórico. Em outras palavras há que se considerar a história de uma população ou cultura, para se descobrir como esta chegou ao estágio de desenvolvimento onde se encontra. Poderíamos fazer aqui uma analogia superficial com os modelos de inteligência e cognição mostrados na Seção 2.2 - Vida Artificial. Se analisarmos, através da história das interações mostradas na Figura 3, os fatores que levaram ao surgimento de qualquer das estratégias de ação ("1001000100010001", "1001", etc.) veremos que este surgimento é decorrência de um processo (historicamente) construído no decorrer das várias gerações de agentes. Milhares de gerações de agentes primitivos, no caso da simulação apresentada, foram necessárias para propiciar o surgimento de agentes com um capacidade cognitivas cada vez mais complexas, capazes de empreender estratégias bem sucedidas (pelo menos no momento histórico onde estavam inseridos) de negociação do Dilema do Prisioneiro Iterado.
A argumentação Vygotskiana baseia-se fundamentalmente no conceito de mediação simbólica. Para Vigotski, a cognição superior do homem surge (ou é potencializada) apenas através da interposição de um elemento intermediário (mediador) entre estímulos e respostas que são captadas e produzidas por uma pessoa (Oliveira, 1997). Estes elementos mediadores pertencem a duas categorias: instrumentos e signos. Instrumentos são os artefatos construídos (quase) exclusivamente pelo ser humano, e utilizados principalmente para auxiliá-lo em alguma tarefa ou trabalho (daqui se origina o viés Marxista da argumentação de Vigotski). Signos são os instrumentos psicológicos orientados para o próprio indivíduo (marcas, desenhos, gráficos, etc.). Posto que estes mediadores são construídos em sociedade, e que estes são fundamentais para o desenvolvimento dos processos cognitivos superiores, deduz-se que, na ausência destes instrumentos, não ocorrerá desenvolvimento de capacidades cognitivas tipicamente humanas.
Só recentemente a teoria de educação construtivista de Vigotski foi reconhecida no ocidente. Este fato se deve a vários fatores: à forma intensa e relativamente isolada (da comunidade científica) que Vigostki empregou durante a execução de seus trabalhos; ao seu falecimento precoce aos 38 anos (boa parte de seu pensamento e obra foram completadas pelos seus seguidores); à publicação original de seus artigos e livros basicamente no idioma russo.
Os elementos centrais da obra de Vigotski, do ponto de vista pedagógico, são (Social Constructivism, 1997; Oliveira, 1997):
| Vigotski | Vida Artificial |
| A comunidade onde o estudante está inserido influencia na construção do conhecimento | As condições atuais do ecossistema onde o agente está inserido influenciam a estratégia de sobrevivência a ser construída pelo agente e seus descendentes |
| Aprendizado não pode ser ensinado, tem que ser construído em sociedade | Inteligência emergente não pode ser sintetizada, mas sim construída através de interação em uma sociedade |
| As situações
pedagógicas mais proveitosas (em termos de aprendizado) são
aquelas nas quais o estudante precisa de auxílio para solucionar
problemas, e encontra apoio adequado por parte dos professores, educadores,
pais ou colegas.
Estudante + situação problema + auxílio do professor => solução do problema + aprendizado |
A pressão ambiental
exercida sobre os agentes de um ecossistema (incorporada através
de uma função de fitness) apresenta desafios a serem
superados pelos agentes. O auxílio adequado à solução
do problema, neste caso, provém da reprodução diferencial
dos antepassados mais bem sucedidos, em um processo social e historicamente
construído, mas visto de trás para frente. Em vez de fornecer
auxílio direto aos aprendizes, a reprodução diferencial
permite que apenas os antepassados que ofereceram as soluções
mais adequadas para os problemas venham a produzir aprendizes. Grosseiramente,
esta situação seria similar a permitir que apenas os bons
professores tenham alunos.
Antepassados + pressão ambiental + reprodução diferencial => evolução + sucessores |
Papert expressou a ênfase da sociedade e cultura na construção do conhecimento usando o termo Technological Samba Schools, que toma como base pedagógica o processo que ocorre nas escolas de samba do Brasil, quando membros de uma comunidade: adultos, profissionais e crianças de várias idades, dentro de uma ampla variação de habilidades e condições, se reúnem freqüentemente durante vários dias do ano e contribuem com sua força de trabalho, para construir alegorias, sambas enredo, fantasias, etc. apresentadas durante o carnaval do Rio de Janeiro. Emulando esta mesma situação, o Construcionismo busca suportar várias atividades de construção, através da ampliação das potencialidades no uso de "ferramentas" cognitivas possíveis de serem usadas em computadores. As atividades de construção compreendem a construção de programas lúdicos, efetuada por crianças, com auxílio de outras crianças e mediadas por professores.
Em síntese, segundo a visão de Papert, o aprendizado é (Bruckman, 1997):
Em consonância com as teorias de
aprendizado descritas anteriormente, o Construcionismo Distribuído
acrescenta os aspectos de cognição e computação
distribuídas, levando em consideração fatores humanos
e tecnológicos pertinentes ao contexto da Internet e da Web. O Construcionismo
Distribuído enfatiza as atividades colaborativas de projeto e construção
de artefatos digitais, em detrimento do uso de redes de computadores como
ferramentas de transmissão e exploração de informação
e conhecimento. Resnick
(1996) destaca três formas de construção distribuída,
cada uma com influência direta no processo de aprendizagem e formação
de comunidade:
1. Discutindo Construções - O uso de correio eletrônico e listas de discussão, suportadas facilmente através da Internet e intranets, indica claramente o impacto positivo que a discussão e aprimoramento de idéias, dicas, estratégias em uma comunidade on-line tem sobre o refinamento destas construções. Demonstrando a importância deste processo, Harnad (1992) analisa o profundo impacto que a troca de mensagens tem sobre o refinamento de idéias, onde mesmo a participação de indivíduos imaturos do ponto de vista intelectual pode provocar efeitos benéficos inesperados na discussão sobre temas de grande complexidade. Harnad considera seriamente o impacto do fenômeno, por ele chamado de sky-writing, e afirma que depois do invento da linguagem, da escrita e da impressão, a discussão on-line sobre construções humanas é a quarta revolução nos meios de produção de conhecimento, a Pós-Galáxia de Gutemberg.
2. Compartilhando construções. - São também muitos os benefícios decorrentes do compartilhamento de construções através de redes de computadores e em comunidades eletrônicas. Em (Burd, 1997) é descrito o efeito inegavelmente benéfico na melhoria da qualidade de projetos de uma turma de estudantes de engenharia de software, em função da solicitação de que os projetos e programas fossem disseminados através da Web, de modo a serem eventualmente analisados e reutilizados por outros usuários. Embora o senso de comunidade pareça não ser tão fortalecido quanto na discussão sobre construções, o fato é que a qualidade da construção, o esforço e interesse dispendido pelos estudantes na elaboração do projeto foi inegavelmente positivo. A preocupação em produzir algum artefato que tem grandes chances de ser reutilizado, adaptado, criticado ou elogiado por membros de uma comunidade, é possivelmente o principal responsável pela melhoria dos projetos. O efeito é tipicamente o inverso quando o estudante suspeita que seu trabalho será possivelmente engavetado ou mesmo desprezado após a conclusão do curso.
3. Colaborando sobre construções - a colaboração de várias pessoas de uma comunidade on-line em torno da construção de artefatos digitais, seja em tempo real ou não, é tema de intensa investigação e desenvolvimento na área de HCI, onde os exemplos mais conhecidos ou difundidos são as plataformas de desenvolvimento colaborativo de software e hardware. Tais aplicações, no entanto, ainda tratam o problema de construção colaborativa como um processo mecanicamente definido (determinístico), carecendo de elementos fundamentais presentes nas Teorias Construcionistas e Construtivistas, que são o senso de localidade, comunidade, cultura, auto-motivação e o suporte à cooperação entre especialistas e noviços. Plataformas que mais concretamente atingem o objetivo construcionista são os MUDs (Multi-User Domains), ou realidades virtuais compartilhadas-textuais, nos quais as atividades de construção, sejam de programas de computador, salas para discussão em tempo real ou objetos que possuem um contexto cultural, incentivam a interação social entre os participantes, criando uma forte noção de comunidade e construção (Bruckman, 1997). A tecnologia, as aplicações e o impacto das realidades virtuais compartilhadas-textuais sobre construção e comunidade são apresentadas mais à frente.
Não se pode perder a noção de que o conjunto dos esforços individuais das pessoas é o principal responsável pela construção do ciberespaço presente e futuro.
Muito embora a motivação dos
modelos e teorias construcionistas e construtivistas seja direcionada ao
processo de aprendizagem, tais modelos e teorias devem também ser
adequados à compreensão do papel e da motivação
que leva indivíduos e comunidades humanas a construir suas próprias
representações de mundo neste ciberespaço.